O Verão em que Hikaru Morreu 02 – Desvendando a Psicologia da Entidade

O segundo volume de Ren Mokumoku mergulha ainda mais fundo no caos interno de quem sobrevive ao horror. Quando a entidade assume Hikaru, não se trata apenas de um trocismo sobrenatural; é um espelho quebrado que reflete medo, culpa, negação e até empatia. Este artigo explora, página a página, como os traços psicológicos de Yoshiko, da criatura imitadora e dos moradores do vilarejo se entrelaçam, criando um clima de angústia que persiste muito além da última página.
Primeiramente, a reação de Yoshiko ao descobrir que o corpo que ela tem abraçado não é mais o de seu amigo, mas uma presença que aprendeu a reproduzir gestos e memórias, é um estudo clássico de dissociação. Ela alterna entre a negação — insistindo que “Ele ainda está aqui”, como se o gesto das mãos fosse suficiente para confirmar a identidade — e a desintegração emocional, quando percebe que os olhos do suposto Hikaru não retornam a brilho familiar. Essa oscilação reflete o que a psicologia do luto denomina fase de procura, onde o cérebro tenta manter contato com a pessoa falecida por meio de fragmentos sensoriais.
Além disso, a própria entidade demonstra um tipo de teoria da mente rudimentar. Ela observa a rotina escolar de Hikaru, aprende a forma como ele se inclina ao escrever, como ele responde ao sarcasmo de seus colegas e, gradualmente, incorpora esses padrões. Essa imitação não é mera cópia; é uma tentativa desesperada de sentir algo humano. No capítulo bônus, a criatura, ainda sem nome, reluta ao tentar observar o reflexo de seu próprio rosto em um lago: a água devolve uma imagem que não reconhece, gerando um sentimento próximo ao terror existencial. Essa cena ilustra a ansiedade de identidade – um medo primitivo de ser um vazio que se projeta no mundo.
Por outro lado, os moradores do vilarejo experimentam um medo coletivo que, segundo estudos de psicologia social, pode ser comparado ao fenômeno da histeria de massa. O primeiro incidente — luzes que piscam nas zigue-zagues do campo — desencadeia rumores que se espalham como fogo em palha seca. Cada relato alimenta o próximo, transformando eventos ambíguos em provas irrefutáveis de presença sobrenatural. Observe como o discurso de Taro, o pescador, converge com o de Aiko, a professora: ambos projetam nos fenômenos externos suas próprias inseguranças não resolvidas, como a culpa por não ter conseguido proteger seus filhos.
Na prática isso significa que o horror não está apenas nas sombras que se movem entre as casas, mas na forma como cada personagem usa a narrativa do sobrenatural para externalizar conflitos internos. Yoshiko, por exemplo, projeta sobre a entidade a culpa de ter deixado Hikaru sozinho na noite em que desapareceu. Quando ela finalmente confronta a criatura, não há apenas luta física; há um confronto simbólico com o “eu” culpado que tem evitado por meses.
Um ponto crucial é a arte de Mokumokuren, que, ao usar hachuras finas e blocos de negro absoluto, cria um contraste visual que espelha a dicotomia mental dos personagens. As áreas de sombra densa correspondem a pensamentos não expressos, enquanto as linhas finas aludem a memórias frágeis que se agarram à superfície da consciência. Quando a edição oficial é visualizada em papel, o leitor sente, quase que fisicamente, o peso da neblina que cobre o vilarejo, reforçando a sensação de aprisionamento psicológico.
Ademais, o romance psicológico que surge entre Yoshiko e a criatura, ainda que implícito, eleva o horror a um patamar existencial. Ela começa a sentir uma espécie de compaixão paradoxal ao perceber que a entidade clama por sentir, que a imitação é, na verdade, um grito de solidão. Essa empatia inesperada gera um dilema moral: destruir a criatura seria acabar com o trauma, mas também seria negar a busca da própria existência da entidade. Esse conflito interno remete ao conceito de culpa moral inversa, onde o herói sente responsabilidade pela morte de um adversário que, ao mesmo tempo, foi vítima de um destino cruel.
Para fechar, vale ressaltar como o volume utiliza onomatopeias que se fundem ao cenário rural. O som “swooosh” das folhas ao vento não é apenas um recurso estilístico; ele funciona como um gatilho auditivo que, em leitores sensíveis, ativa respostas autonômicas de alerta, ampliando a imersão na atmosfera de desconforto.
Ren Mokumoku 02 não oferece respostas fáceis; ao contrário, aponta para a complexidade da mente humana quando confrontada com o inexplicável. A entidade que veste a pele de Hikaru revela, sobretudo, o quanto a nossa identidade depende de gestos, memórias e, sobretudo, da capacidade de ser reconhecida pelos outros. Assim, o horror se torna um convite à introspecção: ao ler, somos forçados a reconhecer nossos próprios medos de perda, culpa e invisibilidade. Ao final, a experiência deixa uma marca profunda, não apenas por seus visuais inquietantes, mas porque cada traço de tinta carrega o peso de uma psique dilacerada, pronta para ser revisit.





