Amor em pauta – Quando a rivalidade vira vulnerabilidade

Wyn and Three, two rival student journalists, working together in a university newspaper office, hinting at a developing romance amidst their competition.

Se você está cansado(a) de romances que anunciam faíscas e entregam só mais do mesmo, Amor em pauta surge como um antídoto inesperado. Samantha Markum coloca duas mentes afiadas – Wyn e Three – em guerra por uma única vaga no periódico universitário, ao mesmo tempo em que ambas se veem presas a um aplicativo de encontros anônimos que esconde mais do que simples mensagens. O resultado é um duelo que vai além da competição acadêmica: ele descortina as camadas psicológicas de quem luta por reconhecimento, por amor e, sobretudo, por aceitação própria.

1. A construção psicológica de Wyn – Wyn não é apenas a estudante de jornalismo que parece ter tudo sob controle. Desde o início, percebemos que sua identidade está intimamente ligada à performance. A pressão para ser a melhor, herdada de uma mãe que era editora de um grande jornal, gera um perfeccionismo rígido: ela revisa obsessivamente cada parágrafo, tem medo de ser “insuficiente” e, por isso, usa o aplicativo de encontros como uma válvula de escape. No anonimato, Wyn projeta uma persona mais leve, quase infantil, que lhe permite experimentar emoções que no campus lhe são negadas. Essa dicotomia revela um mecanismo de defesa clássico – a dissociação – que a protege da ansiedade de não corresponder às expectativas externas.

Além disso, Wyn sofre de uma autocrítica constante que se manifesta em pensamentos intrusivos: “Se eu errar, todo o trabalho dos meus colegas será arruinado.” Esse medo alimenta sua rivalidade com Three, porque cada vitória dele parece confirmar seu próprio fracasso. Quando o leitor acompanha seu monólogo interno nas passagens mais longas, sente o peso de uma autoestima flutuante, que oscila entre a confiança momentânea ao publicar uma matéria e o desespero ao perceber que o elogio vem apenas do professor, não dos colegas.

2. Three – o rival que também tem feridas – Ao contrário do que o título sugere, Three não é o típico antagonista arrogante. Sua fachada de segurança esconde uma história de abandono emocional: o pai o deixou quando tinha oito anos, e a única figura de autoridade que restou foi o tio, um jornalista aposentado que o ensinou a “cortar o que não serve”. Essa educação prática o tornou um estrategista frio, capaz de interpretar cada movimento de Wyn como uma ameaça à sua própria sobrevivência no mundo da imprensa. Seu hábito de “roubar ideias” não nasce do desejo de vencer a qualquer custo, mas de proteger o medo de ser invisível.

Por outro lado, Three apresenta um padrão de apego evitativo. Ele evita intimidade profunda, preferindo o controle das interações via mensagens curtas e sarcásticas. No entanto, quando a matéria explosiva que ele publica desencadeia uma crise institucional, ele se vê obrigatoriamente dependente de Wyn para investigar a verdade. Esse arrasto forçado ao trabalho em equipe faz com que suas defesas psicológicas se desgastem, expondo vulnerabilidades que ele sempre tentou esconder.

3. O papel do aplicativo de encontros – O ambiente virtual funciona como um espelho fragmentado das inseguranças de ambos. Wyn acredita conversar com o monitor do dormitório, mas na verdade está trocando confidências com uma inteligência artificial projetada para simular empatia. Essa ilusão gera um efeito de “efeito de máscara”: ela se sente livre para revelar medos que jamais ousaria dizer a um colega de classe. Three, por sua vez, usa o mesmo app para observar comportamentos sem se expor, desenvolvendo um senso de superioridade que, ironicamente, mascara sua própria necessidade de aprovação.

Além disso, ao analisar as interações no app, Markum demonstra como a tecnologia pode intensificar a dissociação entre o self real e o self projetado. Essa camada tecnológica adiciona profundidade ao conflito interno dos protagonistas, pois cada mensagem lida ou não lida influencia diretamente seu humor, autoestima e decisões acadêmicas.

4. O ponto de virada: união forçada – Quando a matéria de Three desencadeia um escândalo universitário, a direção do periódico obriga os dois a colaborar. O processo de investigação conjunta se transforma em terapia improvisada: eles precisam ler nas entrelinhas, perceber motivações ocultas e, sobretudo, confrontar seus próprios preconceitos. Ao longo desse processo, a narrativa alterna capítulos curtos de tensão – reuniões de pauta, discussões acaloradas – com passagens extensas que mergulham na vulnerabilidade de Wyn, descrevendo seu medo de ser julgada por amar alguém que ainda não conhece cara a cara.

Por outro lado, Three tem momentos de revelação quando, ao ver a dedicação silenciosa de Wyn, começa a questionar seu próprio distanciamento emocional. Ele passa a perceber que a necessidade de controle é, na verdade, um reflexo de sua própria dor de abandono. Essa autoconsciência emergente permite que ele abra espaço para sentimentos genuínos, inclusive o afeto que cresce, lentamente, por Wyn.

5. Reflexões sobre autoestima e corpo‑positividade – Um dos diferenciais de Amor em pauta é a forma como a autora aborda a imagem corporal de Wyn. Ela não a transforma em um símbolo moralizante; ao invés disso, a obra mostra como a autopercepção de Wyn – suas inseguranças sobre peso, roupas e a “lente dos outros” – interage com a pressão acadêmica. O humor sarcástico de Markum serve como válvula de escape, mas também como crítica social: ao rir de si mesma, Wyn aprende a ressignificar o julgamento alheio.

Na prática isso significa que, quando Wyn finalmente aceita seu corpo como parte integrante de quem é, sua escrita ganha autenticidade. Ela deixa de escrever para impressionar e começa a escrever para curar, o que impacta diretamente a qualidade da reportagem que produz em parceria com Three.

6. Diálogos como ferramenta psicológica – Os diálogos de Markum são curtos, afiados e repletos de subtexto. Cada trocação de farpas entre Wyn e Three revela camadas de ansiedade, desejo de reconhecimento e medo de vulnerabilidade. Por exemplo, quando Three diz “Se eu falhar, você vai ser a primeira a apontar”, ele projeta sua própria insegurança sobre a validade de seu trabalho. Wyn, ao responder com um sarcasmo velado, na verdade está defendendo seu próprio medo de ser considerada insuficiente.

Essas interações dialogais funcionam como um espelho interno, permitindo ao leitor acompanhar o progresso emocional dos personagens de forma quase clínica, sem cair em exposições forçadas.

Em Amor em pauta, a rivalidade acadêmica deixa de ser mero artifício de plot e se transforma num laboratório psicológico onde duas personalidades fragmentadas buscam, inconscientemente, reparação emocional. Ao final, a união forçada de Wyn e Three demonstra que o amor pode surgir justamente nos espaços onde os medos mais profundos são reconhecidos e compartilhados. Para quem procura um romance YA que vá além do clichê, oferecendo humor, crítica social e, sobretudo, um mergulho autêntico na psicologia de jovens adultos sob pressão, este livro é uma leitura indispensável. Garanta já a sua cópia e descubra como a competição pode revelar, antes de tudo, quem realmente somos.

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